sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Live over the edge


Hoje a TSF apresenta uma reportagem sobre o endividamento, daí este meu post.

É tão fácil comprar; adquirir; possuír bens materiais. O difícil cada vez mais se torna em os conseguir pagar uma vez que as aquisições a p.p. são cada vez mais escassas, sendo o crédito ao consumo amplamente utilizado e vulgarmente promovido.

Tenho algum conhecimento de causa uma vez que numa das minhas primeiras incursões profissionais passei pela gestão de créditos e cobranças de uma financeira, pertença de um grupo bancário ( entretanto desaparecido, absorvido por outro banco ). Digamos que a minha formação nas áreas económicas depressa se enriqueceu com mais uma pós-graduação, neste caso forçada, em psicosociologia.

Meninos, é dramático e questionável a sociedade de consumo em que vivemos. A tal em que aparentemente mais vale parecer do que ser. Todos querem ter o que não podem, todos tentam comprar aquilo de que não precisam. Encontrar um sóbrio neste quadro é uma raridade.

Afinal, não somos nós os tipos que andam de LACOSTE dos ciganos e camisa da feira com o símbolo de um “cavalinho” como que a querer mostrar que padecemos de fartura financeira ?

O mal é global, não restritivo a este pequeno rectângulo. Na altura em que mais lidei com estes traumas, à mais de uma década, já se falava “ ... na França já há suicídios ...”

Nos meus tempos do crédito, assistia a choradinhos de miseráveis que possuíam jipes topo de gama ou BMWs e afins, todos “supimpas”, mas que no fundo nem um simples Clio deveriam ter. Entendi na altura que Audis e BMW todos os podiam ter e que a ostentação muitas vezes não era sinal de desafogo financeiro, muito pelo contrário, o real problema era pagar todos esses bens. Lidava com pessoas que pagavam a primeira prestação e a partir daí era só choradinhos e fuga para a frente no contorno às responsabilidades. Até por causa de uma miserável TV BANG&OLUFSEN “batiam na trave” logo as primeiras prestações.

As culpas são muitas e de todas as partes, mas para mim, a maior de todas é o “live over de edge” do consumidor, muitas vezes para ostentação e julgamento por partes alheias às contas da família.

Não podem ter um X5, comprem então um TERRANO em 2º mão;
Não podem ter uma casa num condomínio fechado no parque das nações, comprem ao lado e em 2º mão, onde existem excelentes negócios;
Não podem ter um plasma XPTO, comprem um mais baratinho ou mantenham a TV que têm que servirá para o mesmo ...

Enalteço os alertas da DECO e afins, afinal, quem não tem dinheiro não devia ter vícios.

Entendo que o desespero seja grande, a solução passa pela luta da manutenção dos empregos e criação de mais.

No meu tempo “derramavam sangue“ quando os carros eram penhorados, agora, e cada vez mais, é a própria casa onde vivem. É que a Euribor está aí e a subir !!!!

15 comentários:

Maria disse...

Muita gente compra o que pode e o que não pode, existem casos de pura ostentação como referes, mas também começam a existir muitos casos, cada vez mais, de pessoas que são compradoras compulsivas "vi na montra e não resisti, estava tão barato" e este discurso já o ouvi vezes sem conta. No Corte Inglês, sempre que lá vou oiço algo parecido, e a vontade que tenho é perguntar, mas para quê um cachecol e luvas da Burberys se a marca branca ao lado custa menos de metade do preço, porque está muito barato.

Parece que não custa trabalhar, levantar cedo de manhã e ganhar dinheiro.

Beijocas

Xuinha disse...

Hoje à hora de almoço conversávamos sobre isso...

O consumismo.
Viver acima das possibilidades...
Gastar o que não se tem.
A facilidade de recorrer a créditos.
A loucura! :)

Mas ainda há quem se tente manter sóbrio, a muito custo, mas vai-se tentando.

Gostei do teu post sério!

Beijocas

silva disse...

vivemos numa sociedade de puro consumo! acredito q a maior parte das pessoas gosta de viver das aparências, têm grandes carros e vestidos nas grandes lojas que uma peça de roupa comprada lá lhes leva metade do vencimento! e se for preciso abres o frigorifico lá de casa e não há nada para comer! Mas o importante é andar bem vestido e ter um BMW, um Audi ou um Mercedes!! Por outro lado tb cada vez mais se criam coisas que incentivam mais ao consumo por ex: Inventam dias para tudo: Dia da mãe, do pai, da criança, namorados, avós, etc... e a sociedade vai na conversa... depois são cada vez mais os anúncios ao crédito fácil sem complicações no qual se pode juntar a prestação do carro, dos móveis, da casa, das férias, etc... isto é inacreditável!! Sinceramente não entendo esta sociedade!
Eu detesto pagar prestações e adoro dormir descansada na minha almofada:) tb adorava ter um carro melhor mas o corsa por enquanto vai dando para as voltinhas, tb gostava de vestir Gucci, Dolce Gabana, Prada, etc... mas a fiel Zara tb me vai mantendo na moda:)) Prefiro viver com aquilo que realmente posso comprar e andar descansada que não devo nada a ninguém!
:))

Capitão-Mor disse...

Bom...estou a ver que começaste o Ano Novo em grande forma! Este é um assunto que sempre me causou um grande interesse. Um dos grandes ensinamentos que tive aqui no Brasil foi o de me desprender bastante dos bens materiais. Desde já existe o entrave dos preços probitivos de todos os artigos importados. Depois, como é que um gajo pode-se sentir bem com a ostentação, quando a centena de metros de casa vejo um monte de crianças semi-nuas e que mal se alimentam? Os rumos do consumismo desenfreado em Portugal são preocupantes e não será fácil colocar um ponto final nesta matéria. Mas este é um mal nacional que vem desde o tempo das Índias.

mystic disse...

Também vai um pouco da educação que se tem e que se dá. Os meus pais sempre me ensinaram a gastar o dinheiro em coisas necessárias e úteis, assim levo a minha vida, sem grandes luxos, mas digna e gerida de maneira a que vou tendo sempre tudo o que quero e preciso.
Noto no entanto que cada vez mais os pais mimam os seus filhos com coisas que hoje os filhos pedem porque os outros meninos tb têm e passado uns dias já não ligam nenhuma.
E há sempre a questão "se o meu vizinho tem um carro xpto de 1600 de cilindrada eu tenho de ter um 1800 com estofos em pele "...

enfim...

Sofia disse...

Excelente post sobre uma questão séria e preocupante. Nos grandes centros, como Rio e São Paulo, as pessoas são medidas pelas marcas que vestem, pelo carro que dirigem, pelo perfume que usam. Um verdadeiro inferno !!
Abraços,

Jade disse...

Abordaste uma questão verdadeiramente preocupante desta nossa cada vez mais sociedade de consumo. O importante não é ser mas sim parecer e em nome disso faz-se uma ginástica tremenda porque a realidade é que a maior parte das pessoas não consegue manter o estilo de vida que insiste em levar. No outro dia fiquei boquiaberta quando me contaram o estratagema dos cartões de crédito: tu tens um ou dois cartões de crédito, a tua mulher tem outro e vais pagando as contas recorrendo sucessivamente aos diferentes cartões de crédito, isto é, um vai cobrindo o outro. Assim, as compras que fizeres no início do ano serão saldadas lá para o meio do ano... ( por curiosidade, são pessoas ligadas à banca que recorrem a este método). Eu prefiro pagar tudo a pronto (excepto a casa, porque infelizmente não sou rica), assim, como alguém referiu, durmo mais descansada. Também não tenho gostos caros nem sou fanática por marcas ou compras. A única peça de roupa que eu gosto de usar de marca são as calças de ganga porque acho que vestem melhor se forem de marca; de resto, não tenho problema nenhum em ir à feira comprar ums camisola. Claro que continuarei a acalentar o sonho de ter um Alfa Romeo (não o Brera como o nosso amigo 22, já me contento com um outro qualquer)... O mais importante é vivermos a vida e não nos empenharmos por causa de tarecos!
Beijos!

Paula disse...

Tal como escreveste a culpa é de ambas as partes. Se por um lado, as pessoas querem parecer o que não são, por outro, a facilidade com que estes créditos são apresentados é assustadora! Tudo parece simples e concretizável!

LoiS disse...

Existem 3 "D´s" que são considerados os grandes culpados nestes desesperos:

Divócios
Doenças
Desemprego

Mas "D´s" à parte, na minha experiência que relatei foquei os bens mais fúteis, aqueles que mais impressão me metiam na sua compra por gente sem possibilidades. Casos havia e em grande número em que as pessoas nem para pagarem um simples carrinho em 2ª mão ou um electrodoméstico dos mais básicos tinham dinheiro, culpa dos "D´s" ou não a culpa era e muito do consumidor.

Olhem sabem o que Vos digo ? começam hoje os saldos e preciso de comprar ( não a crédito ) dois fatos, vou já antes que os escolham em demasia ... haaa !!! e não tenho alfaiate, é mesmo uma marca de pronto a vestir que me assenta muito bem ;) até já !!!!!!

Bjs e abraços !!!

;)

Lígia disse...

Sempre me disseram "nao ha dinheiro nao há palhaços!" Neste momento, por exemplo ando com um chaço de 16 anos a cair de podre... e era tao facil ir ao stande e comprar um novinho

TONY, Duque do Mucifal disse...

todos dizem que nao sao consumistas, todos, mas de facto os numeros nao mentem. Hoje em dia, quando as pessoas se sentem sós ou deprimidas vão as compras para levantar o ego. Olha a ultima vez que tive deprimido, daquelas vezes que só me apetecia chorar, liguei ao Lois e fomos almoçar. A amizade do Lois foi mais forte e importante do que qualquer compra que eu pudesse ter feito.
Os amigos são assim!

LFM disse...

Azar... quem arrisca, petisca.

freemind disse...

Pois é, é o que faz viver num país em que interessa mais parecer do que ser!!

taizinha disse...

Lois, eu pertenço ao GOEC (Gabinete de Orientação ao Endividamento dos Consumidores). A ideia era as pessoas virem cá antes de se sobreendividarem mas não é isso que tem acontecido. Também eu me pós graduei em psicosociologia.

Pensava que o Fórum da TSF sobre o endividamento era só em Fevereiro, dia 16...

LoiS disse...

Deve ser interessante falar contigo, deves também saber muitas mais histórias para além das que em comum partilhamos com toda a certeza. Muito interessante menina ;)

Olha qt à TSF, ia no carro e ouvi um excerto da reportagem, logo com um caso para "abrir o apetite".
Tenho uma grande amiga que por vezes aqui pára que é jornalista da TSF, embora agora esteja de licença de maternidade tentarei falar com ela sobre o tema e se quiseres falamos melhor sobre isso !